Prefeitura corta até água para impor apoio a Sapão

Cabos eleitorais do vereador Welinton Sandro de Abreu, o Sapão (PSB), candidato a deputado estadual, assediaram, nos últimos dias, as 50 famílias do bairro Granja Verde que desenvolvem um projeto de horta comunitária em um terreno debaixo das linhas de transmissão da Cemig. O projeto fez sucesso recentemente na mídia e projetou Betim em todo o Estado por proporcionar condição de renda e geração de alimentos em um bairro considerado carente.

O assédio eleitoral se deu, de acordo com moradores do bairro, para angariar, na marra, o apoio desses pequenos produtores a Sapão (PSB). “Vocês apoiam Sapão, que é o candidato do prefeito, ou vamos arrancar vocês daqui”, disse, aos gritos, um dos apoiadores da campanha de Sapão.

Porém, inconformados com as ameaças recebidas, alguns participantes do projeto afixaram propaganda de outros candidatos. As ameaças passaram para a prática de coação. Na última terça-feira (23), elas culminaram com o corte do fornecimento de água por parte da prefeitura. Funcionários da Copasa, sem aviso prévio, retiraram os hidrômetros da horta e cortaram a água dos produtores. Segundo eles, “um cabo eleitoral chegou a dizer que a água só voltaria quando todos colocassem a propaganda de Sapão”.

A candidatura do vereador na região do Imbiruçu encontra resistências, principalmente, depois que o prefeito de Betim, Carlaile Pedrosa (PSDB), passou a usar seu tempo e seu mandato para cobrar apoio da comunidade. A postura do chefe do Executivo revoltou os moradores, que o culparam por descaso com a saúde, a segurança e pela ausência de cuidados com a assistência social.

Um dos cofundadores da iniciativa, o morador Joaquim Lopes dos Santos declarou que a retaliação ocorreu porque a maioria da comunidade se recusou a declarar apoio à candidatura apoiada por Carlaile. “Esse candidato é apoiado pelo prefeito, mas nós não queremos votar nele. O corte da água foi um golpe muito baixo”, disse Santos. Já outro produtor, Joaquim Ernani, se disse “indignado e revoltado com covardia da retaliação”. “Sem a água e com esse sol, minhas hortaliças não resistirão”.

Coação

A coação eleitoral incomodou os produtores que criaram a horta. “Fomos surpreendidos. Tivemos a permissão da administração regional em 2013 e montamos a horta com o consentimento da Cemig, dona do terreno, e da própria prefeitura. O pessoal da Copasa, sem comunicação prévia, chegou aqui e levou os hidrômetros”, lamentou Rogério de Paula, morador do bairro.

O aposentado Valdemar Miguel Brás também se queixou.“Há um ano, estamos plantando e colhendo frutos aqui, em nossa horta. Sem água, as plantas morrem”. Outro participante do projeto, Carlos Aurélio Rocha, também aposentado, acusa o que chama de “arbitrariedade”.

“A horta é muito importante para todos que moram no bairro, pois ela consegue trazer benefícios para a comunidade. Antes, neste mesmo terreno, o que existia era um lixão, e ninguém cuidava disso aqui. A gente valorizou o bairro e deu alimentos para quem precisa, gerando renda e ocupando quem não pode contar com um emprego”.

Outro aposentado, Ciro Matias Santos acredita que o interesse político está causando instabilidade geral na comunidade. “Eu mesmo, por exemplo, não vendo minha produção. Faço para meu consumo próprio e para doação, como a maioria que está aqui”.

O projeto, que conta com apoio da Emater na capacitação técnica e no fornecimento de sementes, por enquanto, está a salvo. A chegada da imprensa e a repercussão dada ao fato pelo jornal Super Notícia e pela rádio Itatiaia fizeram com que a prefeitura, às pressas, retornasse com o fornecimento de água ao local.

ONG suspeita

No vale-tudo para eleger o candidato Sapão para o cargo de deputado estadual, além do corte de água de uma horta comunitária, a gestão de Carlaile Pedrosa despejou, em pleno ano eleitoral, recursos públicos em ONG controlada pelo vereador, que, em 2012, tinha sido beneficiado pela mesma prática pela então prefeita MDC, que o ajudou a se reeleger como vereador.

Denunciada por superfaturamento, recrutamento ilegal de funcionários e contratações fraudulentas, a ONG de Sapão recebeu, há três meses, mais de R$ 511 mil da prefeitura, em 30 de junho, faltando exatos 98 dias para as eleições de 5 de outubro.

A Associação Comunitária Espaço para Todos já está sob a mira do Ministério Público desde o ano passado, e, segundo o ex-vereador pelo PSB Raimundo Salomão, Sapão deverá perder o mandato se forem reconhecidas aplicações irregulares de verbas públicas. Ao todo, a entidade recebeu, entre janeiro de 2012, no governo de MDC, e junho de 2014, já na administração de Carlaile, R$ 3,22 milhões, conforme publicado no “Órgão Oficial”.

A fartura dos recursos da prefeitura despejados na ONG foi denunciada como fator impulsionou a grande votação de Sapão em 2012.

Excessos

Para um vereador, que pediu anonimato, “passam governo e prefeitos, mas Sapão acaba se ajeitando com favores e trocas franciscanas, que começaram no governo de Maria do Carmo e continuaram com Carlaile”. O parlamentar condenou o que chamou de “descalabro”. Segundo ele, a votação de 5.757 votos que Sapão atingiu em 2012 só pode ser justificada pelos recursos que recebe. “Mesmo já estando eleito, Sapão trocou de lado. Vendo que Carlaile venceria, ele traiu Maria do Carmo, que lhe concedeu a fartura, e resolveu apoiar o candidato do PSDB”, disse.

Desde o início do ano, relata o vereador, Sapão já estava em plena campanha, gozando de apoio da Secretaria de Assistência Social, que o prefeito já tinha deixado à disposição dele em um esquema de desvios de verbas organizado pelo ex-locutor oficial de Carlaile Carlos Clarindo de Souza, o Carlão.

Uma funcionária da Semas, sentindo-se ameaçada por Carlão, denunciou um esquema que transferia alimentos de programas municipais para serem “entregues como doação de Sapão”. Na época, Sapão imaginava que faria uma “dobradinha” com o filho mais velho de Carlaile.

Ação

Denúncias e um farto dossiê foram entregues ao Ministério Público contra Sapão pelo seu suplente, Raimundo Salomão. Segundo ele, um exemplo dos desvios de recursos e dos abusos com verbas da prefeitura é a compra de materiais esportivos feitas pela ONG de Sapão. “Foram gastos R$ 90.542,40 só na compra de 235 bolas de futebol e outros itens”, disse.

Uma perícia contábil chama a atenção para o fato de 98,8% de toda a compra desse material ter sido feita de um único e pequeno fornecedor. O levantamento identificou ainda que 13 funcionários que trabalhavam na ONG estavam empregados, ao mesmo tempo, no gabinete de Sapão ou na prefeitura, o que é proibido por lei. Além disso, três conselheiros da entidade fizeram doações em dinheiro para a campanha de Sapão em 2012.

Jogo de empurra

Por e-mail, a Copasa afirmou que o corte de abastecimento na horta comunitária foi feito a pedido da prefeitura. Já a assessoria da prefeitura negou ter tido responsabilidade sobre o corte e jogou a culpa na Copasa, que, segundo o governo, “afirmou ter feito o corte por engano”.

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