Betim vê surgir o que seria sua primeira "cracolândia"

“Eles ficam aqui de manhã, de tarde e à noite. A fiscalização é esporádica. A polícia prende um grupo, mas eles voltam. E, enquanto essa situação não tem um fim, a gente finge que não vê”. É com essas palavras e em tom bastante tímido, demonstrando medo, que um morador do bairro Riviera conta à reportagem a rotina de usuários de droga que ocupam o posto de combustíveis Chimarrão, localizado às margens da BR–381.

O estabelecimento, que está desativado há aproximadamente dois anos, dá lugar ao que seria a primeira cracolândia de Betim. Lá, diariamente e a qualquer hora do dia, é possível flagrar cenas de uma ferida exposta no Brasil, o consumo de crack, que, apesar de incomodar e ser tão visível, com pontos já tradicionais de uso e venda da droga, ainda tem personagens desconhecidos e abandonados.

Enquanto homens e mulheres, incluindo uma grávida, acendem seus cachimbos à luz do dia ou se afundam no álcool e outras drogas, a vida no local segue normalmente. “Para ir ao centro da cidade, a maioria dos moradores do bairro Riviera é obrigada a passar na rua que faz esquina com o posto. Esse local é tomado por usuários de drogas. Muitos nos abordam e pedem R$ 10 para comprar uma pedra (de crack). É uma situação degradante”, diz uma dona de casa, que pediu para não ser identificada.

Outra moradora, que também preferiu anonimato, reclama da insegurança. Ela diz que muitos usuários que frequentam o local andam armados. “A gente vive pedindo reforço à Polícia Militar. Os usuários estão no meio da rua, traficando e usando os entorpecentes em plena luz do dia. A gente finge que não vê toda essa situação, para a nossa própria segurança”, comenta.

Por causa da situação, muitos comerciantes já estão desistindo de seus negócios. “Vou devolver o ponto para o proprietário do imóvel. Não vim trabalhar no comércio para conviver com essa situação. O cheiro da droga, às vezes, chega a ser insuportável. Tenho três filhos e não me acostumo em ver os jovens nesse mundo”, justifica um lojista.

Outro comerciante orientou que nossa equipe de reportagem tivesse “cuidado” ao se aproximar do local. Segundo ele, o consumo de drogas no posto se intensificou em novembro de 2013, depois que uma grande operação realizada pelas polícias Civil e Militar em um prostíbulo do Riviera, que também era frequentado por usuários de drogas, resultou na prisão de três suspeitos. Na época, 11 mulheres foram retiradas do local e levadas para centros de assistência social. A operação teve o apoio do Corpo de Bombeiros, da Guarda Municipal de Betim e de uma equipe da Secretaria de Assistência Social do município.

“Começamos a perceber que o fenômeno migra. Se sumiram, não necessariamente deixaram de usar droga, mas deixaram de fazê-lo ali. Isso impõe um desafio aos serviços, que é reconstruir as referências”, diz o subsecretário de Políticas sobre Drogas de Minas Gerais, Cloves Benevides.

Mais de 60% dos usuários são do sexo masculino

Embora o crack venha sendo usado no país há mais de duas décadas e tenha ganhado caráter de epidemia em 2011, ainda há poucos estudos que indiquem a dimensão do problema fora e dentro das metrópoles.

Em Betim, dados da Superintendência Antidrogas – órgão competente por formular, coordenar, articular e executar, de forma integrada, as políticas sobre drogas nas áreas de prevenção, atenção e reinserção social – mostram que o perfil dos usuários de crack no município pode ser traçado da seguinte forma: pessoas com idade entre 14 e 21 anos, com ensino médio completo e de baixa renda. Somente neste ano, o órgão atendeu a 4.732 usuários. Destes, 37% são do sexo feminino, e 63%, do sexo masculino. Do total, 5% estão em situação de rua.

“O perfil dos usuários é traçado após estudo detalhado dos atendimentos prestados pela superintendência e também leva em conta as estatísticas desenvolvidas pela Polícia Militar”, informou a assessoria de imprensa da Antidrogas, ao ressaltar que, em parceria com o Estado e com o governo federal, desenvolve o programa “Crack, é possível vencer”. O projeto tem a finalidade de prevenir o uso e promover a atenção integral ao usuário de crack e seus familiares.

A Antidrogas também atua em conjunto com as secretarias de Assistência Social e de Saúde e com a Superintendência de Segurança Pública. O trabalho inclui o desenvolvimento de projetos como “Educar para Prevenir”, “Educando pela Vida”, “Fé e Ação”, “Vivendo e Aprendendo” e “Comunidade Atuante nos Diversos Segmentos da Sociedade Civil Organizada e Governamental” – este último, em parceria com o governo do Estado.

Brasil

Em 2013, a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgaram uma pesquisa inédita no país que trouxe as primeiras informações científicas sobre o consumo da droga. Estima-se que haja uma população de 370 mil usuários de crack nas 26 capitais e no Distrito Federal.

No entanto, o estudo não avalia a situação fora das capitais, embora seja notório que o crack vem tirando o sossego de pequenos e grandes municípios, como Betim, por exemplo. “O Brasil ainda não tem a cultura de estudar o fenômeno em profundidade, de forma que nos permita apontar o caminho com assertividade. Vivemos de discutir o óbvio”, diz o subsecretário de Políticas sobre Drogas de Minas Gerais, Cloves Benevides. (Com Luciene Câmara)

Pontos isolados

O 33° Batalhão da Polícia Militar, por meio de sua assessora de imprensa tenente Luiza Rocha, negou que Betim tenha uma cracolândia e disse que o que acontece são apreensões rotineiras de drogas em pontos isolados da cidade. “O tráfico é uma epidemia mundial, e, sem dúvida, esse é um dos maiores desafios da corporação”, ressaltou a militar. “A população é o segundo olho da polícia na rua. Por isso, denúncias podem e devem ser feitas ao 181”, completou.

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